Brunno Elias

Atividade física, bem-estar e um pouco mais (ou não…)

Crioterapia e alterações fisiológicas

Posted by Brunno em 27 de Agosto de 2009

*Texto apresentado para avaliação na especialização em Wellnes: Saúde & bem-estar.

A crioterapia não tem seu surgimento bem definido, visto que o uso do gelo artificial só foi possível na metade do século XIX (VASCONCELLOS, 1998), enquanto o uso de alta temperatura (banhos quentes, saunas, compressas) já era bem difundido desde a Pré-história. Segundo a revisão realizada por Vasconcellos (1998), crioterapia é um “procedimento físico de se causar a baixa de temperatura de uma certa região corporal, com fins terapêuticos. Tem como sinônimo Termoterapia por subtração”.

Dentre as formas de aplicação identificadas pelo trabalho (VASCONCELLOS, 1998), estão:

– Cloreto de etila, etilmetano e neve carbônica (gelo seco): são substâncias voláteis ou gasosas que, ao evaporarem, roubam calor do ambiente próximo. São de uso restrito, efeito intenso, localizado, pouco duradouro e são relativamente dispendiosas. Têm maior aplicação em criocirurgia do que em crioterapia;

– Água fria: com temperatura abaixo de 18ºC, podendo mesmo ser próxima de zero grau ou abaixo de zero em soluções salinas crioscópicas. O fato de ser água corrente aumenta muito o efeito de diminuição da temperatura;

gel45– Ar frio: por intermédio de máquinas modernas, que direcionam uma corrente de ar frio, com umidade e temperatura variáveis, para dentro de um recipiente fechado onde caiba, por exemplo, um pé ou uma mão;

– Gelo: feito com água normal ou adicionada com álcool etílico (quatro partes para uma) para melhorar sua plasticidade. Pode ser usado sob várias formas (saco plástico, bolsa de borracha, toalha embebida, gelo moído ou “picolés”);

– Bolsas de gel: lacradas, reutilizáveis, com tamanhos e formas variadas;

– Reagentes químicos congelantes: componentes que, ao se misturarem, formam imediatamente um composto muito frio. Podem apresentar efeitos irritativos.

Vasconcellos (1998) cita que os efeitos terapêuticos da crioterapia estão condicionados a alguns fatores, como: duração da aplicação, área da superfície tratada, intensidade do frio, local do corpo e suas estruturas anatômicas, sensibilidade e resposta individual, e quadro a ser tratado. Todos esses condicionantes estão submetidos às respostas teciduais ao frio, principalmente do tecido nervoso, suas terminações, seus mediadores bioquímicos, seus envoltórios e suas especificidades de fibras. Com o propósito analgésico, usa-se o frio como contra-irritante, produzindo endorfinas e aumentando o limiar da dor. Abaixo de 10ºC, ocorre bloqueio total das transmissões dos impulsos nervosos. Até quarenta e oito horas após traumas leves ou moderados, o frio vai atuar tanto na diminuição da dor como prevenindo edema e sangramentos, por vasoconstrição reflexa simpática e liberação de histamina. Deve-se ter atenção para o período de vasodilatação pós-aplicação, que poderá aumentar o edema e sangramento. Aplicações rápidas, de menos de oito minutos, servem para estimular contrações em músculos comprometidos ou fracos. Aplicações acima de quinze minutos induzem ao relaxamento muscular. Quanto à amplitude de movimentos, o frio aumenta a rigidez articular.

Sobre a rigidez após a aplicação de crioterapia, Barbosa e Manfio (2007) avaliaram 29 sujeitos pré e pós uso de crioterapia por 20 minutos em protocolo de equilíbrio estático por 60 segundos em condição unipodal e bipodal. Os autores verificaram diferenças significativas entre as condições pré e pós com alteração do centro de pressão, somada ao aumento da rigidez articular, diminuição da sensibilidade de percepção de posição, alteração da força isométrica, flexibilidade e desempenho funcional. O trabalho alerta que a prática esportiva após administração da crioterapia pode aumentar a probabilidade de ocorrências de lesões músculo-esqueléticas.

Iserhard e Weissheimer (1993) ndicam a aplicação da crioterapia na fase aguda, pois seus efeitos (vasoconstriçäo, diminuiçäo do metabolismo, reduçäo do edema e da hipóxia) terão melhores resultados se quando administrados precocemente no traumatismo. Essa decisão evita que a lesão se complique e favorece a reabilitação.

Matheus et al. (2008) realizaram um ensaio com uso de ratos para verificar os efeitos da crioterapia após lesão muscular induzida. A lesão foi induzida por queda livre de carga no músculo gastrocnêmio dos ratos anestesiados. Houve grupo controle, grupo lesionado e grupo lesionado tratado com crioterapia. Após a morte dos animais, foi realizado ensaio mecânico de tração para verificação de carga no limite máximo antes da ruptura, alongamento máximo e rigidez. Os melhores resultados vieram do grupo controle. O grupo lesionado tratado com crioterapia teve respostas acima do grupo lesionado. O estudo indica que a crioterapia por imersão imediata após lesão promove melhora das propriedades mecânicas do músculo.

Em estudo realizado por Oliveira et al. (2007), similar ao anterior, foi verificada a diminuição da área de lesão muscular por meio de crioterapia intermitente e compressão em ratos. Foi induzida lesão muscular nos grupos que receberiam a crioterapia e compressão, somente a compressão e lesão – controle. O protocolo de crioterapia consistia em aplicação de 30 minutos associada à compressão, a cada 90 minutos. 24 horas após o tratamento os animais foram mortos e análise demonstrou diminuição significativa da área de lesão muscular nos animais submetidos à crioterapia e compressão quando comparados ao grupo que recebeu somente compressão e ao grupo sem tratamento.

Na revisão realizada por Sandoval et al. (2005) é possível perceber a necessidade de aplicação imediata da crioterapia para melhores efeitos, principalmente na presença de processo álgico e inflamatório. A crioterapia impõe analgesia por adaptação do receptor, efeito contra-irritante e efeito neurogênico. Quando se limita o grau de inflamação, inibem-se os efeitos dos componentes remanescentes. Quando se limitam os mediadores inflamatórios, reduz o grau de hemorragia e de edema. Quando se diminui a pressão mecânica sobre os nervos, reduz a dor. Conforme ocorre a diminuição do espasmo muscular e do edema existe menos congestão na área e a quantidade de morte celular por hipóxia é limitada. Foi possível verificar que a crioterapia tem seus benefícios alcançados durante a fase aguda, entre 24 e 72 horas. O tempo de aplicação varia de 15 a 30 min. Dependendo da situação e técnica utilizadas, devendo ocorrer um intervalo de 2 horas entre cada aplicação.

A análise dos trabalhos expostos permite identificar os efeitos positivos da crioterapia, apesar de lacunas experimentais e sua aplicação na rotina de atividades físicas. Percebe-se a urgência da administração do terapia nas lesões para prevenção da piora do quadro e melhor recuperação.

REFERÊNCIAS

BARBOSA DP; MANFIO Educação Física. Influência da crioterapia por imersão do tornozelo no equilíbrio estático. XII Congresso Brasileiro de Biomecânica, 2007.

ISERHARD AL; WEISSHEIMER KV. Crioterapia: por que sua aplicação na fase aguda. Fisioter. Mov., 6 (1), 1993, 92 – 9.

MATHEUS, JPC; MILANI JGPO; GOMIDE LB; VOLPON JB; SHIMANO AC. Análise biomecânica dos efeitos da crioterapia no tratamento da lesão muscular aguda. Rev. Bras. Med. Esprote, 14 (4), 2008, 372 – 5.

OLIVEIRA NML; SALVINI TF. O efeito da crioterapia e compressão interminente no músculo lesado de ratos: uma análise morfométrica. Rev. Bras. Fisioter., 11 (5), 2007, 403 – 9.

SANDOVAL RA; MAZZARI AS; OLIVEIRA GD. Crioterapia nas lesões ortopédicas: revisão. EF Deportes, 10 (8), 2005.

VASCONCELLOS LPWC. Noções de crioterapia. Revista Perspectivas Médicas, 9, 1998, 29 – 31.

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